quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Senta aqui no "meu peito" filhote! Hoje,depois do jantar,vamos ler "As duas casas da Matilde" ❤

Naquela manhã, o sol brilhava intensamente e incidia diretamente na toca da coelha Matilde. Lá dentro, Matilde comia apressadamente o seu pequeno-almoço, pois eram já horas de ir a correr e a saltitar para a escola. Não gostava de se atrasar, pois a professora Cassandra, a coruja, olhava sempre de soslaio para aqueles que chegavam depois da aula começar. E em seguida emitia um som de desagrado: hummm… Porém, apesar da pressa, Matilde ficou mais alguns momentos ali na cozinha da toca, ouvindo o papá e a mamã que, no quarto ao lado, falavam alto e pareciam zangados um com o outro.

 ‘O que será agora?...’ pensava Matilde, sentindo que o sol lá fora já não brilhava tão intensamente e perdendo a vontade de saltitar… apesar da pressa.

Aquele dia na escola foi muito interessante. A professora organizou os alunos em grupos de trabalho e deu-lhes um tema sobre o qual teriam que elaborar um texto para apresentar depois à turma. O tema era ‘A família’. No grupo da Matilde estavam a tartaruga Joaquina e o pardal Tomás.

– Bem, eu acho que a família é feita daqueles com quem vivemos… – disse a tartaruga Joaquina docemente – Eu vivo com a mamã, o papá e o mano.

– Não é sempre assim – respondeu o pardal Tomás, de penas arrebitadas e olhar vivaço – Eu por exemplo moro com a mamã e a avó, mas a minha família não são só elas! Também tenho o papá, embora não viva no mesmo ninho que eu!

– Ai é? – perguntou Matilde, pensativa – O teu papá mora longe?

– Não. Mora logo três árvores ao lado e vêmo-nos quase todos os dias. Hoje é ele que me vem buscar à escola e depois vamos praticar voos rasantes juntos! – respondeu entusiasmado o pardal Tomás, que adorava desportos radicais.

– Vá, vamos escrever o texto que já só temos dez minutos – alertou a tartaruga Joaquina, pegando no caderno e no lápis.

Matilde foi escolhida pelo grupo para ir ler o texto perante os colegas e a professora. Começou então:
Família é quem cuida, quem cozinha connosco um bolo de cenoura e chocolate, quem trata as feridas, quem dá colo.
Família é quem nos abraça, quem nos ouve e dá conselhos, quem nos aconchega os cobertores numa fria noite de inverno.
Família é quem ajuda com os trabalhos da escola, quem brinca connosco, quem nos ama
.

Tanto a professora como os restantes alunos aplaudiram o texto da Matilde, da Joaquina e do Tomás.

-Muito bem, meninos! É isso mesmo: as famílias podem ser muito diferentes, mas só assumem o nome ‘família’ quando têm as raízes que nos fazem crescer felizes.


Contente com o elogio da professora, Matilde correu de regresso a casa com vontade de contar ao papá e à mamã como tudo tinha corrido naquele dia na escola. Ao chegar, viu que os dois estavam sentados no sofá às riscas da sala-de-estar. Estavam silenciosos e aparentemente serenos, mas Matilde sentia que aquele não era um silêncio normal nem confortável. Não era o silêncio que surge quando queremos apenas ouvir a Natureza cantar lá fora. Nem era o silêncio que inunda a toca quando todos vão descansar. E também não era o silêncio que se impõe quando damos um abraço à mamã ou ao papá e tentamos guardá-lo na memória, fechando os olhos e apenas sentindo o perfume do amor que se solta. Não. Aquele era um silêncio que Matilde desconhecia e que trazia com ele uma novidade.

– Olá filhota. Senta-te aqui connosco. Temos uma coisa para te contar – começou a mamã, ajudando-a a tirar a mochila das costas.

Matilde sentou-se entre a mamã e o papá e aguardou.

– Bem, o que temos para te contar é que a mamã e o papá vão separar-se. Decidimos que não queremos mais viver juntos e, por isso, viveremos em casas diferentes – explicou o papá, tranquilo.

Mas queremos que te lembres sempre, em todos os momentos, que o divórcio entre os pais não significa nunca o divórcio do pai ou da mãe contigo. Não existe divórcio entre pais e filhos. Essa é uma relação que nada nem ninguém pode cortar – continuou a mamã, acarinhando as compridas orelhas da Matilde.


A serenidade dos papás era branca. Parecia a neve que cai no bosque no mês do Natal. Ou o doce açúcar que a avó Berta polvilha por cima das suas tartes. E essa branca serenidade trouxe à boca da Matilde palavras que, embora trémulas e hesitantes, tinham em si a forte certeza de que tudo ficaria bem.

– Vou passar a ter duas famílias? Vou viver com quem?

Meu amor, passarás a ter duas casas, mas a família é só uma e estará sempre unida por ti e para ti. Uma família que resolverá quaisquer problemas que surjam, uma família que comemorará tudo o que de importante acontecer na tua vida. Achas que a mamã ou o papá deixariam de assistir à peça de teatro da festa de fim de ano da escola?! Ou que não te acompanhariam ao hospital se partisses uma patita?! – perguntou a mamã, deixando bem claro que só uma mudança aconteceria na vida da Matilde: passaria a ter duas tocas e viveria com o papá e a mamã, embora em casas separadas.

– Uns dias dormirás aqui nesta toca, noutros irás dormir à toca do papá. Tanto a mamã como o papá continuarão a dar-te banho, a ajudar nos trabalhos-de-casa, a passear contigo! Ah, temos que escolher a cor para pintar o teu quarto, filha! – exclamou o pai, entusiasmado.

– Hummm… talvez cor-de-laranja, como as cenouras… – respondeu Matilde, sorridente. Por momentos lembrou-se da alegria do colega Tomás, apesar de falar dos pais que viviam separados. E agora compreendia porquê. A mamã e o papá estarão sempre presentes na vida dos filhos e, todos juntos, serão sempre uma família.

Mas, logo em seguida, os olhos de Matilde voltaram-se para o chão e entristeceram-se. As suas grandes orelhas baixaram-se sobre eles, tentando ocultar as redondas lágrimas que rolavam devagar pelos seus bigodes. Depois, palavras lentas, pequeninas e tristes saíram da sua boca:

- Vão separar-se porque às vezes porto-me mal, não é? Como no outro dia em que saltei tanto no sofá que caí e parti a jarra de flores que a avó Berta tinha oferecido?...

– Matilde, minha querida, os papás vão separar-se porque deixaram de gostar um do outro enquanto namorados, mas continuarão sempre a gostar-se enquanto teus pais. Talvez tenhas reparado que ultimamente não andamos tão carinhosos ou até que às vezes temos discutido… Foram os sinais de que a nossa relação de amor chegou ao fim. Mas o amor que temos por ti, esse, só pode continuar a crescer e é tão certo existir como todas as noites o sol dormir e a lua acordar.

Nesse instante, Matilde olhou lá para fora e viu que o sol já se punha, deixando o céu com a sua cor preferida. Limpando as lágrimas e sentindo no coração a certeza de não vir a perder nunca o pai ou a mãe, deu-lhes as mãos e disse, sorridente e orgulhosa:

– Hoje na escola fizemos um trabalho sobre a família. Escrevemos um texto que vai amanhã ser afixado no átrio. Vou pedir à professora para acrescentar uma frase.

– Qual, Matilde? – perguntou a mamã, curiosa.

Família é quem nos assegura estar sempre aqui, mesmo que more noutra casa.

Os três deram um abraço. E, desta vez, as palavras dos papás substituíram o silêncio.

– Amo-te, Matilde – disseram os pais em uníssono.

Escrito por Eunice Guerreiro

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