quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Se me dás uma bolacha, e isso te faz feliz, porque dizes obrigado? Não é contrassenso, paizinho? 😝 Colocámos a questão "na mesa", e a namorada do pai foi perguntar ao Google, porque o saber não ocupa lugar na nossa barriguinha!!


“Por que a língua portuguesa nos obriga a usar a palavra ‘obrigado’ na hora de agradecer alguma coisa? Não é esquisito, quando paramos para pensar nisso? Onde está a obrigação? E outra dúvida: uma mulher pode dizer ‘obrigado’ ou deve sempre dizer ‘obrigada’?”

O sentido de obrigado como fórmula de agradecimento é literal. O que faz com que se estranhe. È um fato de que a palavra, inicialmente um adjetivo, vem ganhando nesse caso uma autonomia de interjeição. Perde-se na memória coletiva a construção que a levou a ser empregada em tal papel.

O particípio do verbo obrigar (do latim obligare, “ligar por todos os lados, ligar moralmente”) expressa o reconhecimento de uma dívida entre quem recebe um favor ou gentileza e quem o faz – ambos, dessa forma, ligados, atados, presos por um laço moral.

A frase completa seria “fico-lhe obrigado”, ou seja, “passo, a partir deste momento, a ser seu devedor”. Na linguagem jurídica, obrigado é também um substantivo que significa “sujeito passivo de uma obrigação”, isto é, de uma dívida ou outro compromisso contratual.

Sobre a segunda dúvida, farei aqui um resumo do que respondi em 2010 a um leitor impressionado com o número de mulheres que dizem “obrigado”. Do ponto de vista da tradição, trata-se simplesmente de um erro, um sinal de desleixo com o idioma. Se obrigado é um adjetivo, exige que se apliquem a ele as flexões cabíveis de número e gênero: obrigada, obrigados, obrigadas.

Ocorre que o papel de adjetivo, como eu disse acima, vem se perdendo na palavra quando a empregamos com o sentido de “grato”. Hoje o termo costuma ser usado como interjeição, o que torna natural que seja compreendido como invariável. Aquilo que de certo ponto de vista é um erro indiscutível também pode ser encarado como uma mutação linguística em curso.












Com a ajuda de : Sergio Rodrigues/ Sobre as palavras

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